A Prática Cognitiva na Infância

Descrição

“A Prática Cognitiva na Infância” é o resultado da vasta experiência dos autores na prática clínica com crianças e preenche uma lacuna na literatura científica nacional, bastante carente no que se refere ao tratamento cognitivo-comportamental infantil. Trata-se de um importante guia para superação dos desafios dessa prática psicológica complexa, porém de modelo simples e acessível.

Os colaboradores, qualificados autores e referências nacionais quanto aos temas que  escrevem que desenvolvem novidades na prática com as crianças, aceitaram o desafio de torná-las públicas.

Esta obra contribui para que a psicoterapia cognitiva com crianças se torne mais difundida e colabora na formação de novos terapeutas, para que interfiram nessa fase da vida tão importante e capaz de afetar positiva ou negativamente o futuro das pessoas.

Intervenções bem fundamentadas em práticas de saúde mental na infância são determinantes para a promoção da saúde mental e resiliência futuros, fato que constitui a verdadeira razão para a organização deste trabalho.

Sumário

PARTE 1 – PRINCÍPIOS BÁSICOS E FUNDAMENTOS TÉCNICOS

Capítulo 1. Desenvolvimento Cognitivo na Infância: Implicações para a Terapia Cognitivo-comportamental

Christian Haag Kristensen – Maycoln Leoni Martins Teodoro – Daniele Nonnenmacher – Luiziana Souto Schaefer

Capítulo 2. Aspectos Bio16gicos da Estruturação da Personalidade e Terapia Cognitivo-comportamental

Neri Mauricio Piccoloto – Ricardo Wainer

Capítulo 3. Princípios de Psicoterapia Cognitiva na Infância

Marina Gusmao Caminha – Renato Maiato Caminha

Capítulo 4. Conceitualizacão Cognitiva com Crianças

Renato Maiato Caminha – Marina Gusmão Caminha

PARTE 2 – APLICAÇÕES CLÍNICAS NO HUMOR

Capítulo 5. Terapia Cognitiva na Depressão Infantil

Tatiana Azevedo – Marina Gusmão Caminha – Renato Maiato Caminha

Capítulo 6. Transtorno Bipolar na Infância

Jose Caetano Dell’Aglio Junior – Angela Leggerini de Figueiredo

PARTE 3 – APLICAÇÕES CLÍNICAS NA ANSIEDADE

Capítulo 7. Transtorno do Estresse Pós-Traumático na Infância

Christian Haag Kristensen – Renato Maiato Caminha – Jaqueline A. Malheiros da Silveira

Capítulo 8. Caracterização e Tratamento da Fobia Especifica em Crianças

Cátula Pelisoli – Andressa Henke Belle – Renato Maiato Caminha

Capítulo 9. Fobia Social

Wilson Vieira Melo – Daniela Di Giorgio Schneider – Giovanni Kuckartz Pergher

Capítulo 10. Transtorno Obsessivo-compulsivo

Isabela D. Soares – Angela Alfano – Leonardo F C. Fontenelle

Capítulo 11. Ansiedade de Separação

Jaqueline A. Malheiros da Silveira Valquíria Perin Eilert – Renato Maiato Caminha

Capítulo 12. Mutismo Seletivo

Marina Gusmão Caminha

PARTE 4 – APLICAÇÕES CLÍNICAS NOS TRANSTORNOS DISRUPTIVOS

Capítulo 13. Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade na Infância: Caracterização, Diagnostico e Tratamento

Andressa Henke Belle – Cátula Pelisoli – Cleonice Alves Bosa

Capítulo 14. Terapia Cognitivo-comportamental para Transtorno do Comportamento Disruptivo

Giovanni Kuckartz Pergher – Daniela Di Giorgio Schneider – Wilson Vieira Melo

PARTE 5 – APLICAÇÕES CLÍNICAS NOS TRANSTORNOS DE EXCREÇÃO

Capítulo 15. Enurese

Edwiges Ferreira de Mattos Silvares – Rodrigo Fernando Pereira – Mariana Castro Arantes

PARTE 6 – TÉCNICAS COMPLEMENTARES

Capítulo 16. Treinamento de Pais: Aspectos Teóricos e Clínicos

Marina Gusmão Caminha – Cátula Pelisoli

 

Introdução

Renato Maiato Caminha e Marina Gusmão Caminha

As psicoterapias cognitivas foram concebidas como modelo teórico-prático a partir da abordagem da psicopatologia adulta. E visível, na literatura cientifica dominante nos anos 1980, estudos de validação e eficácia praticamente ignorarem a população infantil. 

Nada mais natural no comportamento de um paradigma emergente do que limitar seu espectro de ação até que a solidez conceitual esteja definitivamente estabelecida.

Analisando-se o comportamento histórico das psicoterapias cognitivas, observamos que a expansão do paradigma foi bem gradual e sempre se valendo de estudos empíricos bem desenhados para, somente então, explorar novos horizontes do comportamento e da psicopatologia humanos.

Partindo da depressão, o modelo cognitivo foi ganhando terreno rumo aos transtornos de ansiedade, posteriormente aos transtornos de personalidade, capítulo ainda bastante em aberto atualmente, até alçar vôo, a partir dos anos 2000, em direção a esquizofrenia e demais manifestações das psicoses.

A infância foi surgindo na trajetória das terapias cognitivas quase que a margem de seu desenvolvimento. Até então, a única maneira de se produzir intervenções psicoterápicas na infância, respeitando-se os modelos científicos, era por meio da psicoterapia comportamental.

Conceitualmente parecia que estávamos diante de um paradoxo. Uma questão comumente formulada a terapeutas cognitivos de crianças era: como é possível psicoterapia cognitiva com crianças se, para que haja psicoterapia cognitiva, e necessário desenvolvimento cognitivo pleno? A palavra-chave para essa resposta e interacionismo. Edward O. Wilson previu num livro publicado no ano de 1975, intitulado Sociobiologia: a nova síntese, e considerado uma verdadeira revolução no pensamento cientifico, a época vanguardista, que as ciências se encaminhavam no futuro para uma verdadeira intersecção.

Conforme Wilson, seria impossível fazermos ciência encapsulados apenas num campo isolado do conhecimento. Em suma, não seria possível produzirmos novos conhecimentos sem interlocução complementar a outras áreas do conhecimento cientifico.

Para Wilson, o campo de atuação profissional de um biólogo, médico, engenheiro continuaria pertencendo aos habilitados a esse tipo de prática profissional, entretanto, produzirmos avanços na psicoterapia sem considerar conceitos de outras áreas como Biologia, Medicina e até Engenharia sobre o comportamento humano incidiria na pobreza teórica e instrumental para os terapeutas.

De volta ao interacionismo, e justamente valendo-se desse conceito que as psicoterapias cognitivas puderam sustentar sua pratica clinica aplicada a infância.

Os anos de 1990 ficaram rotulados como “a década do cérebro”, e a explosão do conhecimento sobre o cérebro humano e o desenvolvimento cerebral infantil trouxe à tona a diversidade cognitiva de crianças conforme suas faixas etárias.

Os mesmos conceitos aplicados a pratica com adultos podem ser utilizados na infância desde que devidamente contextualizados. Para tal, depende levarmos em conta não apenas a idade da criança, mas sua capacidade funcional cognitivo- comportamental.

Crenças centrais, crenças subjacentes, pressupostos básicos, pensamentos automáticos, distorções cognitivas e esquemas são conceitos perfeitamente aplicáveis e verificáveis quando praticamos psicoterapia infantil.

Mais do que isso, sessões estruturadas, metas, aliança terapêutica, psicoeducaçao quanto ao transtorno, quanta ao modelo, resumo, feedback, tarefas extra-sessão e resolução de problemas são igualmente aplicáveis a crianças.

A fundamental diferença entre psicoterapia cognitiva de adultos e de crianças é a capacidade do terapeuta para criar linguagens capazes de acessar a criança e promover o ambiente terapêutico propício ao desfecho do tratamento.

Quando idealizamos este trabalho, buscávamos nos desafiar. O primeiro desafio era tornar público os mais de 10 anos de pratica com crianças em clinica-escola universitária e a tentativa diária de criar jeitos diferentes para acessar crianças e praticar psicoterapia cognitiva.

O segundo desafio envolvia reunir terapeutas em nosso meio cientifico que estivessem produzindo novidades na pratica com crianças e que aceitassem o desafio de torná-las pública.

E, finalmente, o terceiro desafio: contribuir, por intermédio de nosso trabalho, para que a psicoterapia cognitiva com crianças se torne mais difundida em nosso meio, ainda bastante carente de literatura nacional. Alem disso, que esse trabalho pudesse contribuir na formação de novos terapeutas e estimulá-los a intervir em crianças.

Estamos bastante satisfeitos por termos cumprido os dois primeiros desafios; o terceiro, está entregue ao tempo.

A infância, mais do que uma fase na vida dos seres humanos, é um conceito. Esse conceito sofreu tantas mudanças ao longo do tempo, conforme variavam os cenários sociais e históricos que é quase impossível expô-Ias todas sem que escrevamos um tratado histórico sobre infância, papel de historiadores e não de terapeutas.

Resumidamente, crianças, ao longo da história, já foram vistas como adultos em miniatura, já foram comparadas a animais sem alma e que deveriam servir à exaustão aos adultos, já foram concebidas como seres que necessitavam de disciplina rígida e com punições físicas, até, finalmente, serem consideradas seres frágeis e dependentes de cuidados básicos.

Hoje em dia sabemos que elas não apenas são frágeis e dependentes de cuidados básicos envolvendo alimentação e higiene, como também dependem muito de afeto positivo, amoroso, para que se desenvolvam saudavelmente.

Com a base de conhecimento cientifico dos dias atuais sobre a infância, consideramos estar cada vez mais próximos de um “conceito” mais amplo e complexo sobre essa fase da vida tão importante e capaz de afetar positiva ou negativamente o futuro das pessoas.

Acreditamos que intervenções práticas, bem fundamentadas na infância são determinantes para a promoção de saúde mental e resiliência futuros e, ai sim, nos deparamos com a verdadeira razão para organizarmos esse trabalho.