Treinamento de pais: aplicações clínicas
28 de Setembro de 2022
O treinamento de pais (TP) consiste em ensinar a eles o que modula o comportamento das crianças e influencia a chance de determinado comportamento ocorrer novamente.
Além disso, ensina uma série de técnicas comportamentais envolvendo o uso da atenção diferenciada, sistemas de remuneração e de restrições de remuneração, assim como planejamento de situações de potencial confronto.
Justamente por esse motivo que os programas de treinamento de pais têm sido a base dos tratamentos cognitivo-comportamentais para transtornos disruptivos na infância.
MODALIDADES
Existem duas modalidades de TP, ambas as intervenções com resultados equivalentes. A primeira é aquela que visa a criança ou o adolescente de modo individual.
Nesses casos, a intervenção é feita junto aos pais e, em alguns casos, também incluindo avós, babás ou demais integrantes da família que participam ativamente da vida e educação da garotada.
A segunda modalidade diz respeito ao tratamento grupal, em que os pais são atendidos coletivamente, com o cuidado de unir responsáveis por pacientes com faixa etária aproximada e também com sintomas ou transtornos semelhantes.
FUNCIONAMENTO
Na prática do treinamento de pais, o terapeuta deve estar atento a algumas questões durante a avalição do problema.
Tais questões referem-se a aspectos comportamentais e cognitivos dos cuidadores e englobam, por exemplo, qual a lista de comportamentos-problema da criança segundo a família e a escola; quais reforçadores contribuem na manutenção do comportamento desadaptativo; como os pais se comunicam com a criança e como resolvem problemas.
Num segundo momento, ainda visando à conceitualização do caso, o terapeuta investiga dados de anamnese, bem como do funcionamento da criança.
Também investiga quais as principais emoções da criança conforme a visão dos pais; de que maneira o problema apresentado se liga às emoções da criança; como os pais se sentem quando a criança se comporta daquele modo e o que pensam e fazem diante de tal comportamento.
Investiga, ainda, dados relevantes da vida da criança e da família, inclusive a possibilidade de existência de traumas.
PARTICIPAÇÃO
Na conceitualização do caso, a criança deve participar das sessões tanto individuais como com os pais. Nos momentos de atendimento conjunto, o profissional pode ter clareza do modo de comunicação e funcionamento familiar.
O terapeuta pode inclusive propor atividades desafiantes nas quais a família deve procurar modos eficazes de resolvê-las. Nessas atividades, fica muito claro como buscam solucionar problemas, como se comunicam, quem lidera a situação, como se expressam, como discutem etc.
Após uma eficiente avaliação do caso, o terapeuta deve trabalhar com os pais alguns pontos para fundamentar o contrato.
São eles: devolução da avaliação, incluindo psicoeducação; definição de metas; estabelecimento de expectativas realistas para o comportamento dos filhos; esclarecimento de que modificando os elementos que atuam sobre a criança se poderá obter um tratamento mais eficaz; e investigação do quanto os pais se dispõem a modificar seus próprios padrões de comportamentos disfuncionais.
LITERATURA
O livro “Intervenções e treinamento de pais na clínica infantil”, publicado pela Sinopsys Editora e organizado pelos psicólogos Marina Gusmão e Renato Maiato Caminha, reúne a experiência de profissionais reconhecidos nacionalmente em função de suas pesquisas e intervenções clínicas na prática infantil.
A obra é voltada para terapeutas que trabalham com crianças e adolescentes e necessariamente orientam pais.
Considerando os cuidadores como participantes significativos da intervenção focada na criança ou mesmo como o foco principal do tratamento, os autores enfatizam as modalidades de tratamento, indicando inclusive os principais protocolos utilizados predominantemente em casos de psicopatologias específicas.
Longe de esgotar a temática ainda pouco aprofundada na literatura nacional, a publicação pretende inaugurar a discussão sobre o trabalho com pais numa ótica cognitivo-comportamental, enfatizando a importância da abordagem nesse processo que busca modificações importantes na vida das crianças e de suas famílias.
