Infância, racismo e saúde psicológica - Sinopsys Editora

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Infância, racismo e saúde psicológica

29 de Janeiro de 2019

Pela psicóloga Livia Marques* 


Algo que eu percebo claramente na sociedade e dentro do nosso meio, da Psicologia, é que não falamos muito sobre a questão racial na Academia. E, como agravante, vejo que há a invalidação, por parte do psicólogo, quando um paciente diz que sofre racismo e o quanto aquilo mexe com ele. Bem, realmente dói quando recebemos e ouvimos essas pessoas em nossos consultórios. Ao mesmo tempo, acredito realmente que, como psicólogos, nós podemos mudar essa situação e trazer para a Psicologia esse debate tão necessário. Não é verdade? 


Vemos, em nossos estudos enquanto psicólogos, que crianças são, desde cedo, "esponjas" para aprenderem o que está ao seu redor. Elas aprendem, pela observação, pela fala e por seus exemplos mais próximos. E vemos, no dia a dia, que crianças são "esfaceladas" por serem negras.  



Há casos clínicos em que a criança chega ao consultório por ser agressiva e é constatado que ela age dessa forma porque sofreu bullying na escola, ouvindo um colega dizer: "que estranho esse seu cabelo ruim! Parece sujo! Eu não vou tocar em você enquanto não der um jeito!" 


Em muitos casos, essa fala e o que quem a ouviu sente são atos invalidados. Ou, ainda, se considera apenas o bullying, sem considerar que ele está atravessado diretamente pelo racismo. A criança automaticamente se sente atingida (é claro que se sentirá!) e terá, imediatamente, prejudicada a visão que tem de si. Caso a situação persista, pode continuar sendo invalidada, tanto pela escola quanto pelos pais. Sim, isso acontece em casa porque, infelizmente, esses pais podem ter passado por situações semelhantes durante a infância que os fazem dizer coisas como "Vai passar, deixa pra lá!" ou "Isso também acontecia comigo na sua idade, depois passa".  


Nesse momento, você percebe que esses pais passaram por essa dor e, de tanto ter essa dor invalidada, acabou sendo normalizada. E, por consequência, eles continuam propagando a crença de que o sofrimento que alguém falar do cabelo de uma pessoa não deve ser validado. Esse é apenas um dos exemplos que trago de como o racismo é realmente impactante na saúde mental de nossas crianças e, principalmente, sobre a importância de que nós psicólogos precisamos saber trabalhar essa demanda, que a cada dia aumenta mais e mais. 


* Livia Marques é psicóloga (CRP 05/37353), palestrante, professora universitária, escritora e coordenadora do livro "Desafios de Educar volume I e II"

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infância, racismo, saúde mental

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