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De volta para casa: Libertando-se de namoros violentos - parte 1

04 de Julho de 2019

* Sheila Murta e colaboradores

Namoros violentos ocorrem com muita frequência, como atestam os noticiários que assistimos cotidianamente. Histórias de namoros abusivos, quando divulgadas, em geral descrevem níveis muitos severos de abuso, que culminam em suicídio ou homicídio. Mas há muitas experiências de violência banalizadas e invisibilizadas, especialmente a violência psicológica. Comportamentos como controlar, depreciar, diminuir a autoestima, gritar, xingar, impedir de ver amigos e culpabilizar o outro são sinais comuns de violência emocional ou psicológica, a mais frequente entre namoros mundo afora, incluindo o Brasil (Oliveira, Assis, Njaine, & Pires, 2014). Muitas vezes, o controle do parceiro, as crises de ciúmes e as proibições para mantê-lo junto a si todo o tempo são tomados, equivocadamente, como sinal de amor. Um estudo com jovens de Recife mostrou que muitos dos jovens interpretam estas condutas do parceiro como demonstrações de bem-querer e cuidado (Nascimento & Cordeiro, 2011). Isto perpetua a violência e retarda o término do namoro ou a busca de outras soluções.

Além da violência psicológica, como previsto na Lei Maria da Penha (Brasil, Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006), há ainda outras formas de violência, como a física, a mais visível de todas, como empurrões e tapas; a sexual, como usar de ameaças à autoestima do outro para pressioná-lo para fazer sexo e fazer sexo sem o seu consentimento; a moral, como difamar o parceiro por meio da divulgação de fotos íntimas; e a patrimonial, como quebrar o celular do parceiro e destruir seu carro. Estudos de vários países, incluindo o Brasil, mostram que adolescentes de ambos os sexos, em relações heterossexuais e homossexuais, de diferentes classes sociais, podem ser vítimas e perpetradores de violência no namoro. Não se trata, portanto, de um problema restrito a poucos, mas de alcance abrangente.

Infelizmente, muitas das formas de violência são glorificadas em nossas produções culturais, como músicas (da bossa nova, passando pelo samba, até o sertanejo), livros e filmes. Assim, constrói-se uma cultura de aceitação da violência, como se toda relação de amor envolvesse, em alguma medida, violência e fosse normal viver "entre tapas e beijos" (o que não é o caso). Neste cenário, não é surpreendente que as relações amorosas sejam construídas com base no pressuposto de que o outro é um objeto a ser possuído, à medida em que são abundantes modelos de relações íntimas violentas dentre as relações próximas, como amigos e familiares, até influências mais distantes, como personagens midiáticos.

Um estudo realizado por pesquisadores da Fiocruz, com 3.205 adolescentes em dez capitais brasileiras, de todas as regiões do País, encontrou que 86,9% dos jovens foram vítimas e 86,8% já praticaram algum tipo agressão contra o parceiro íntimo (Oliveira, Assis, Njaime, & Oliveira, 2011). As autoras verificaram ainda que 76,6% dos participantes são tanto vítimas como perpetradores das diversas formas de violência.

Os dados revelaram, por ordem crescente:

  • violência relacional, como prejudicar as relações afetivas e sociais do parceiro por meio de calúnias (16%, violência sofrida; 8,9%, violência perpetrada);
  • violência física, como espancar (19,6%, violência sofrida; 24,1%, violência perpetrada);
  • ameaça, como prometer abandonar o parceiro como forma de coação (24,2%, violência sofrida; 29,2%, violência perpetrada);
  • violência sexual, como forçar contato íntimo (43,8%, violência sofrida; 38,9%, violência perpetrada) e,
  • com índices muito elevados, violência verbal/emocional, como humilhar (85%, violência sofrida; 85,3%, violência perpetrada).

Soa intrigante por que adolescente e jovens sujeitam-se a relações violentas e permitem-se manterem-se aprisionados em relações tóxicas, mesmo quando ainda não têm filhos, não estão casados, e não dependem financeiramente do outro. Uma resposta sucinta a esta questão é por que vínculos afetivos são poderosos e aprendemos a amar assim com o mundo ao nosso redor ("homens são deste jeito", "mulheres são assim mesmo", "o amor tudo suporta", "não consigo viver sem ele").

Hoje já se sabe que a violência no namoro é aprendida com as influências sociais, dos pares e familiares às quais os jovens são expostos desde o início da vida.

Pertencer a culturas sexistas e comunidades tolerantes para com a violência, ter amigos que são violentos com seus parceiros e pais que se tratam com violência como casal e receber tratamento violento dos pais são algumas das principais razões que favorecem a vitimização pelo parceiro íntimo. Estas experiências podem construir atitudes de aceitação da violência, dificuldades em lidar com conflitos no namoro e insegurança em relacionamentos íntimos ("eu não sou boa o suficiente, ele é tudo o que eu tenho").

Ao fim, tem-se um amor pernicioso (ainda que, em alguma medida, gratificante), que aprisiona e ameaça o bem-estar e a integridade dos envolvidos, ao longo de gerações. Um estudo recente indica que a violência no namoro, entre casais adolescentes, pode se perpetuar até a vida adulta (Greenman & Matsuda, 2016), com novas ondas de risco à saúde mental do casal e dos filhos. Em curto prazo, diversos efeitos danosos da violência no namoro têm sido documentados, incluindo depressão, transtorno de estresse pós-traumático, abuso de álcool, desejo de pôr fim à própria vida e, em casos extremos, suicídio e homicídio. Condutas autolesivas são especialmente frequentes em tentativa de término (Baker, Helm, Bifulco, & Chung-Do, 2015), o que mostra que romper este vínculo de afeto, mesmo violento, é uma tarefa árdua.


Sobre a organizadora:

Sheila Giardini Murta é Professora Adjunta no Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB). Mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano e Doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela UnB, com estágio de doutoramento na Queensland University of Technology, Austrália. Pós-Doutora pela UFSCAR e Universidade de Maastricht (Holanda). Especialista em Análise Política e Políticas Públicas (UnB). Investiga o desenvolvimento, a avaliação, a difusão e a adaptação cultural de programas de promoção de saúde mental e prevenção a riscos para transtornos mentais para pessoas em diferentes estágios e transições do ciclo de vida.


Fontes usadas nos três posts:

Baker, C. K., Helm, S. H., Bifulco, K., & Chung-Do (2015). The relationship between self-harm and teen dating violence among youth in Hawaii. Qualitative Health Research, 25(5), 652-667.

Edwards, K. M., Gidycz, C. A., & Murphy, M. J. (2015). Leaving an abusive dating relationship:  a prospective analysis of the investment model and theory of planned behavior. Journal of Interpersonal Violence, 30(16) 2908-2927.

Greenman, S. J. & Matsuda, M. (2016). From early dating violence to adult intimate partner violence: continuity and sources of resilience in adulthood. Criminal Behavior and Mental Health, 26, 293-303.

Murta, S. G., Moore, R. A., Miranda, A. A. V., Cangussú, E. D. A., Santos, K. B., Bezerra, K. L. T., & Veras, L. G. (2016).  Efeitos de um programa de prevenção à violência no namoro. Psico-USF, 21(2), 381-393.

Murta, S. G., Ramos, C. E. P. L., Tavares, T. N. G., Cangussú, E. D. A., & Costa, M. S. F.  (2014). Desenvolvimento de um website para prevenção à violência no namoro, abandono de relações íntimas abusivas e apoio aos pares. Contextos Clínicos, 7(2), 118-132

Murta, S. G., Ramos, C. E. P. L., Tavares, T. N. G., Cangussú, E. D. A., & Costa, M. S. F.  (2014). Libertando-se de namoros violentos. Novo Hamburgo: Sinopsys.

Murta, S. G., Santos, B. R. P., Nobre, L. A., Araújo, I. F., Miranda, A. A. V., Rodrigues, Í. O., & Franco, C. T. P. (2013). Prevenção à violência no namoro e promoção de habilidades de vida em adolescentes. Psicologia USP, 24, 263-288.

Nascimento, F. S. N, & Cordeiro, R. L. M. (2011). Violência no namoro para jovens moradores de Recife. Psicologia e Sociedade, 23, 516-525.

Oliveira, Q. B. M., Assis, S. G., Njaine, K., & Oliveira, R. V. C. (2011) Violência nas relações afetivo-sexuais. In M. M. Minayo, S. G. Assis,  & K. Njaine (Eds.). Amor e violência: um paradoxo das relações de amor e do ficar (pp. 87-140). Rio de Janeiro: Fiocruz.

Oliveira, Q. B. M., Assis, S. G., Njaine, K., & Pires, T. O. (2014). Namoro na adolescência no Brasil: circularidade da violência psicológica nos diferentes contextos relacionais. Ciência & Saúde Coletiva, 19(3), 707-718.

Santos, K. B. (2016). Mobilizando comportamentos de ajuda na rede de amizades: uma estratégia de prevenção à violência no namoro baseada nos pares e na abordagem do espectador. Tese de Doutorado, Universidade de Brasília, Brasília.

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Abuso, Namoro, Psicologia, Relacionamento, Violência

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