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Psicoterapia Online: Personalização do serviço e aspectos da privacidade

16 de Maio de 2019

por Bruna Lantyer*


Aspectos das interações no contextos digitais passam a interessar o campo da Psicologia enquanto ciência e profissão na medida em que verifica- se o uso e apropriação da internet por psicólogos e outros indivíduos, emergindo assim novas demandas éticas e de atuação para estes profissionais. Alguns tópicos que têm sido investigados no âmbito da Psicologia permeiam, a saber, o mapeamento dos usos e apropriações da internet por psicólogos (Hallberg & Lisboa, 2016); a verificação da construção de vínculo terapêutico na modalidade de atendimento online (Prado & Mayer, 2006; Singulane & Sartes, 2017; Pieta & Gomes, 2014; Pieta, 2014; Rodrigues, 2014; Rodrigues & Tavares, 2016;); as atitudes sobre a permissão da psicoterapia online (Marot & Ferreira, 2008); aspectos da abordagem no contexto do atendimento online (Oliveira, 2009) e o desenvolvimento de protocolos para o atendimento online (Gumier, 2015; Silva, 2017). Nota-se que uma significativa parte do corpo investigativo em psicologia e internet está sob a ótica da psicoterapia online e sua efetividade, indicando a emergência do campo.

Junto a estas produções, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) brasileiro regulamenta a prática de atendimento psicológico online a partir do ano 2000, sofrendo mais quatro atualizações até o ano de 2018 (e.g. 2000; 2003; 2005; 2012 e 2018). Na Resolução Nº 011/2012, os psicólogos que apresentassem interesse em oferecer atendimento psicológico por meio de Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) (i.e. internet), deveriam ter websites cadastrados no site do Conselho Federal de Psicologia (CFP) e por conseguinte, apresentar o selo regulamentador. Na resolução mais recente de No 11/ 2018 os psicólogos passam a não precisar mais submeter websites para aprovação, sendo necessário um cadastro individual junto aos Conselhos Regionais de Psicologia (CRP). A prática de atendimento psicoterapêutico que antes era permitida apenas em caráter experimental ou não ultrapassando o máximo de 20 sessões, passa a ser permitida na nova regulamentação.

Um fenômeno de caráter inaugural e legitimador no que se refere ao atendimento online por psicólogos e que acompanha as demandas de atendimento regulamentadas pelo CFP, são as startups que visam a intermediação entre psicólogos e clientes na ambiência digital. Empreendedores perceberam uma oportunidade de negócio neste nicho, a partir da criação de websites de fomento à psicoterapia online, oferecendo um serviço personalizado ao psicólogo e ao cliente. A ideia central é possibilitar ao paciente a escolha de qual profissional se adequa mais às suas necessidades, através de filtros, como foto, gênero, abordagem teórica, região, "transtorno", valor da sessão, formação acadêmica, especialidade e horários disponíveis. Em alguns dos websites é possível que os psicólogos acumulem opiniões advindas dos pacientes que foram atendidos por ele, através de signos como "estrelas" e comentários disponíveis no perfil do psicólogo, deste modo sendo possível verificar o nível de aceitação do profissional antes de marcar a primeira sessão online. Todas as informações apresentadas pelos profissionais são públicas, ou seja, para ter acesso à elas basta apenas entrar no site, sem necessariamente se cadastrar enquanto profissional ou cliente.


Diz-se que tal serviço é personalizado pelas implicações que tem àqueles que o buscam, tanto a partir da possibilidade de filtragem dos aspectos mais relevantes para si, quanto pelas consequências que estas escolhas terão sobre o individuo, a partir de novas ofertas cada vez mais "personalizadas". Esta personalização do serviço de psicoterapia compreende uma forma de interação contemporânea, onde as particularidades da arquitetura de tais websites moldam a forma como os psicólogos se apresentam nestas plataformas e consequentemente sua experiência profissional passa a corresponder às novas expectativas daqueles que demandam do seu serviço.

A prática e a apresentação do psicólogo sofre influência significativa no contexto digital, o que molda inclusive a expectativa social a respeito de tal profissão. A apresentação de si dos psicólogos nestes websites reconfigura portanto o modo de exposição destes profissionais e o acesso dos clientes à eles. Por um lado, do ponto de vista do profissional há a possibilidade do gerenciamento daquilo que é exposto sobre si, como as informações contidas nos filtros, que representam dados valiosos e que estão disponíveis publicamente. Por outro lado, ao selecionar a partir dos filtros as características do profissional que mais se adequa às suas necessidades, o cliente também está expondo suas preferências online. Este modo de interação produz como subproduto a copropriedade de dados tanto do profissional quanto do cliente junto à plataforma.

Aspectos da privacidade

Ao expor voluntariamente dados pessoais sobre si através da escolha, como o tipo de "transtorno" ou a abordagem psicoterapêutica que prefere, os algoritmos tornam-se coproprietários desses dados e isso lhes garante ação na delimitação de normas/regras de utilização destes, além do acúmulo para quaisquer outros usos. A partir disso, a agencia de controle desses dados não é apenas pessoal e privada, mas trata-se de uma agencia em grupo, onde o usuário, seus pares, a plataforma e algoritmos adquirem copropriedade dessas informações (Nejm, 2016).

O acúmulo de informações sobre si e o tratamento destas pelos algoritmos modifica a noção de privacidade e sua regulação. Por exemplo, um individuo que tenha se cadastrado no site afim de iniciar o atendimento psicoterapêutico necessariamente precisará filtrar suas preferências de acordo com a sua demanda. Esta ação por si denota que aquele site passa a ser coproprietário de informações específicas do cliente, como o transtorno ao qual ele tem interesse em tratar. Esta agência compartilhada de dados permite que o site sugira desde um psicoterapeuta mais adequado para aquela demanda à um livro de autoajuda que fale sobre ansiedade e até um fim de semana no resort "x". Deste modo, a experiência de entrar em contato com o psicoterapeuta ultrapassa os fins do atendimento psicológico, indo em direção a um atendimento personalizado de acordo com o comportamento online do usuário.

Os limites entre público e privado nos contextos digitais nem sempre estão claros. Partindo de uma concepção dialética, a definição de privacidade envolve a regulação de fronteiras (Petronio, 2002) onde o individuo deve lidar com tensões entre expor alguns aspectos de si em detrimento de outros, sendo esta escolha dependente do contexto ao qual ele está inserido. A privacidade então estaria circunscrita neste continuum. Independente das consequências de expor mais ou menos aspectos de si mesmo, percebe-se que existe um esforço no manejo desta regulação, que fica ainda mais evidente quando transpomos o conceito para os contextos digitais (Derlega & Chaikin, 1977).

Os websites que oferecem o serviço de psicoterapia online precisam apresentar na página principal os termos de uso e privacidade do site, onde deve estar explícito como os dados daqueles que o acessam e se cadastram são tratados. Neste termo deve ser detalhado o modo como as informações dos usuários são coletadas e para qual fim são utilizadas, assim como deve estar claro as estratégias adotadas pelo site para garantir a confidencialidade dos atendimentos online e a preservação das informações pessoais dos usuários.

Alguns websites não deixam claro de que modo os dados dos usuários dos serviços são coletados, no entanto fazem alusão a uma utilização mais "personalizada" dos dados. No momento em que as informações dos clientes são coletadas, estas podem ser utilizadas para o oferecimento de produtos ainda mais personalizados de acordo com o perfil do cliente. É evidenciado ainda que o usuário pode suprimir a coleta dos seus dados pela plataforma e colaboradores, no entanto esta ação tem como consequência a não utilização de todas a funções da plataforma. Neste exemplo a agencia de controle dos dados do usuário é compartilhada (i.e. usuário, plataforma, sites de terceiros, algoritmos) e é também hierárquica, uma vez que o usuário é "coagido" a oferecer suas informações ou caso contrário não terá acesso livre à plataforma.

A agência compartilhada dos dados com a contrapartida de uma experiência mais personalizada é percebida nestes websites que intermediam a relação entre o psicoterapeuta e o cliente/paciente. Esta dinâmica evidencia aspectos particulares do contexto digital, onde conceitos como privacidade sofrem influencia direta dos condicionantes técnicos do ambiente.

Do ponto de vista do profissional de psicologia que oferece o seu serviço nestes sites, verifica-se um esforço em apresentar características especificas sobre si, afim de angariar mais cliques e atendimentos. Este modo de apresentação do psicólogo é relativamente novo, sendo possível com o advento da internet e pode moldar a forma como a psicologia é percebida e principalmente como o profissional vivencia sua atuação.

Os pacientes/clientes que buscam o serviço psicológico através da internet e se deparam com a facilidade oferecida por estes websites, lidam com serviços personalizados e em contrapartida com o oferecimento dos seus dados pessoais aos sites. Ressalta-se ainda que este modo de interação dinâmica corrobora com a demanda vivenciada pelos usuários da internet, onde cada vez mais os serviços e produtos estão sendo oferecidos de modo personalizado.


Referências

GUMIER, A. B. (2015). Terapia por internet para dependentes de álcool: desenvolvimento de um protocolo de pesquisa e intervenção.  
HALLBERG, S. C. M., & LISBOA, C. S. de M. (2016). Percepção e uso de tecnologias da informação e comunicação por psicoterapeutas. Temas em Psicologia,24(4), 1297-1309.  
MAROT, R. S. V., & FERREIRA, M. C. (2008). Atitudes sobre a aprovação da psicoterapia online na perspectiva da teoria da ação racional. Interamerican Journal of Psychology, 42(2), 317-324.
NEJM, R. (2016). Exposição de Si e Gerenciamento da Privacidade de Adolescentes nos Contextos Digitais. (Tese de Doutorado, Universidade Federal da Bahia). 
OLIVEIRA, P. C. da S. (2009). O Divã Virtual e a Linguagem do Atendimento Psicanalítico On-line no Ciberespaço. (Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual do Norte Fluminense). 
PETRONIO, S. S. (2002). Boundaries of privacy: dialectics of disclosure. Albany: State University of New York Press.
PIETA, M. A. M. (2014). Psicoterapia pela Internet: a Relação Terapêutica. (Tese de Doutorado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul). 
PIETA, M. A. M., & Gomes, W. B.. (2014). Psicoterapia pela Internet: Viável ou Inviável?. Psicologia: Ciência e Profissão, 34(1), 18-31. 
PRADO, O. Z.l, & MEYER, S. B. (2006). Avaliação da relação terapêutica na terapia assíncrona via internet. Psicologia em Estudo, 11(2), 247-257. 
RODRIGUES, C. G. (2014). Aliança Terapêutica na Psicoterapia Breve Online. (Dissertação de Mestrado, Universidade Federal de Brasília). 
RODRIGUES, C. G., & DE ARAUJO TAVARES, M. (2016). Psicoterapia Online: Demanda Crescente e Sugestões para Regulamentação. Psicologia em Estudo, 21 (4), 735-744.  
SINGULANE, B. A. R., & SARTES, L. M. A. (2017). Aliança Terapêutica nas Terapias Cognitivo-comportamentais por Videoconferência: uma Revisão da Literatura. Psicologia: Ciência e Profissão, 37(3), 784-798. 


SOBRE A AUTORA:
* Bruna Lantyer é Psicóloga, mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFBA, especialista em Terapia Analítico Comportamental pela Universidade Jorge Amado. Atua há 4 anos como Psicóloga Clinica com o foco em Transtornos de Ansiedade. Atende aos públicos infantil, adolescente e adulto. É pesquisadora no grupo de pesquisa ACSC - Analise do Comportamento, Subjetividade e Cultura (UFBA) onde desenvolve pesquisas com delineamento teórico e prático acerca de processos culturais e práticas clínicas. Áreas de Interesse: Subjetividade e Cultura; Psicoterapia mediada por dispositivos técnicos digitais e Utilização de dispositivos vestíveis de automonitoramento de aspectos de si.
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ética, psicologia, psicoterapia online

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