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De volta para casa: Libertando-se de namoros violentos - parte 2

08 de Julho de 2019

Recentemente iniciamos uma conversa (aqui) sobre relacionamentos abusivos. Dando sequência, hoje vamos falar sobre o término de namoros violentos.

Alguns estudos, principalmente norteamericanos, têm examinado o processo de término de relacionamentos violentos (por exemplo, Edwards, Gidycz, & Murphy, 2015). As pesquisas na área ainda são poucas, mas já apontam alguns direcionamentos sobre aspectos que facilitam ou dificultam dar fim a esse tipo de relação. Um primeiro aspecto que a literatura científica aponta diz respeito aos recursos e barreiras estruturais para o fim da relação. Esse conceito se refere a aspectos de ordem prática necessários à sobrevivência, como ter ou não renda própria, depender do parceiro financeiramente, ter ou não ter casa. Aspectos como esses limitam muito a possibilidade de escolha de uma pessoa que está em situação de violência e dificultam que a pessoa tenha autonomia para sair do relacionamento. Para uma pessoa que enfrenta barreiras como essa (por exemplo, alguém que não tem renda própria ou depende da outra pessoa para sobreviver), um primeiro passo para que seja possível dar fim ao relacionamento diz respeito a procurar formas de autonomia, como conseguir uma fonte de renda ou buscar apoio financeiro (ainda que de forma provisória) em outras pessoas, como familiares e amigos.


Outro ponto que vem se mostrando muito consistente na literatura científica sobre término de relacionamentos violentos diz respeito ao conceito de normas subjetivas. Esse conceito exprime aquilo que uma pessoa considera que as pessoas mais significativas para ela, como familiares e amigos, pensam sobre um tema, nesse caso, a continuidade ou término do relacionamento. Isso sinaliza que para que uma pessoa consiga deixar um relacionamento violento é importante que pessoas ao seu redor apóiem-na nisso e expressem para ela esse pensamento e seus sentimentos quanto a vê-la naquela relação. No entanto, é importante ter cuidado ao comunicar isso para que, ao invés de ajudar, o amigo ou familiar não acabe atrapalhando e se tornando mais uma fonte de sofrimento. 

Veja o Quadro 1 para conhecer um pouco sobre o que os estudos científicos têm mostrado a respeito da melhor forma de ajudar um amigo ou parente que esteja vivendo um relacionamento violento. Para uma pessoa que não tem apoio adequado da família ou dos amigos para terminar um relacionamento, uma atitude que pode ser importante é a de procurar expandir suas relações de amizade, buscando ambientes nos quais possa ter apoio para refletir melhor sobre seu relacionamento e seus próprios sentimentos. Existem serviços especializados para apoiar pessoas que estejam vivenciando esse tipo de experiência, mas é importante também tentar identificar aquelas pessoas da própria rede de amizades e do círculo de convivência que podem realmente trazer apoio nesse momento.


Um terceiro aspecto que os estudos têm investigado diz respeito ao nível de investimento na relação. Esse conceito envolve a compreensão sobre pelo menos três aspectos: a satisfação com o relacionamento, a qualidade das alternativas e os investimentos irrecuperáveis. Sobre a satisfação com o relacionamento, é importante lembrar que as relações violentas não têm só o lado negativo. Muitos elementos nestes relacionamentos podem ser gratificantes também, e mesmo que para alguém que observa de fora pareça incompreensível, um relacionamento violento pode ter muitos pontos de satisfação e é exatamente por isso que o sentimento fica tão confuso. 

A qualidade das alternativas é definida pela maneira como a pessoa avalia as alternativas que ela tem disponível como, por exemplo, ficar sozinha ou buscar outros relacionamentos. Essa é uma avaliação subjetiva e muitas coisas influenciam nela. Ainda há poucos estudos sobre isso, mas aspectos como ter baixa autoestima e não se ver capaz de ter outros relacionamentos melhores, sentir muita ansiedade e necessidade de ter a outra pessoa por perto a ponto de não conseguir tolerar os sentimentos difíceis que a distância traz, ter outros campos da vida - como estudos, trabalhos ou projetos pessoais - pouco desenvolvidos, de forma que se ver sem a outra pessoa se torne muito difícil, estar isolado ou distanciado de relacionamentos com outras pessoas, como familiares e amigos, tornando aquele namoro a única relação próxima que a pessoa tenha. Em contextos como esses que foram descritos, se aproximar de outras pessoas e fortalecer amizades positivas pode ser uma grande ajuda. Além disso, procurar apoio terapêutico pode ser um apoio importante. Relacionamentos amorosos são um campo muito significativo na vida de qualquer pessoa, por isso buscar ajuda para aprender a construir relações com mais qualidade pode ser um passo importante para viver relações mais felizes no futuro.

Por fim, os investimentos irrecuperáveis se referem a como a pessoa avalia que o fim da relação trará perdas que ela não pode recuperar. Exemplos de investimentos irrecuperáveis são o próprio tempo de relacionamento (que não pode voltar) ou o esforço empreendido em fazer aquele relacionamento dar certo. Sobre esse último ponto, em muitas relações violentas as pessoas fazem grandes esforços para trazer mudanças à relação e, de fato, às vezes alguns pontos melhoram, mas não o suficiente para trazer tranquilidade e felicidade. Essa dinâmica pode trazer a sensação de que o casal está "quase lá" e que terminar seria como jogar tudo por água a baixo. Dessa forma, uma avaliação sobre os investimentos irrecuperáveis que favorece o fim do relacionamento se refere, por exemplo, a conseguir perceber o relacionamento não como algo que vai pelo ralo quando acaba, mas como experiências que, mesmo sofridas, trouxeram aprendizados importantes e fazem parte de uma trajetória de vida que se aproxime daquilo que cada pessoa deseja e busca para si.

No Brasil, o Grupo de Estudos em Prevenção e Promoção de Saúde no Ciclo da Vida da Universidade de Brasília têm buscado compreender o que impulsiona a mudança, da violência à autoproteção frente a namoros com maus tratos (Murta, Ramos, Tavares, Cangussú, & Costa, 2014a ). As experiências de pessoas que conseguiram sair de um namoro violento indicam que existe um caminho a ser percorrido, desde a percepção da violência como um problema que merece ser resolvido até distanciar-se do parceiro. A mudança pode ser lenta e dolorosa. Trata-se de um processo de mudança que não tem tempo determinado, podendo variar entre semanas e anos. Começa-se tomando consciência do problema e reconhecendo a relação como violenta. Em seguida, toma-se a decisão de fazer alguma coisa para se proteger e os primeiros passos são dados, nem sempre para sair da relação, mas para testar soluções, cuidar de si e se fortalecer.  Tomada a decisão, em seguida vem o término concreto da relação violenta, quando diversos cuidados precisam ser tomados para lidar com a dor, o medo, a saudade e a tensão, quando o parceiro é ameaçador. Por fim, na etapa final, deve-se cuidar para não haver recaídas, com retorno à relação antiga ou a outros relacionamentos com o mesmo padrão violento. Este processo é bem descrito por uma teoria chamada Modelo Transteórico de Mudança, também aplicado para mudança em outros alvos, como deixar de fumar (Figura 1).


Na próxima semana, falaremos sobre a aplicação do Modelo Transteórico para Proteger-se de Namoros Violentos.


Sobre a organizadora:
Sheila Giardini Murta é Professora Adjunta no Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília (UnB). Mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano e Doutora em Psicologia Social e do Trabalho pela UnB, com estágio de doutoramento na Queensland University of Technology, Austrália. Pós-Doutora pela UFSCAR e Universidade de Maastricht (Holanda). Especialista em Análise Política e Políticas Públicas (UnB). Investiga o desenvolvimento, a avaliação, a difusão e a adaptação cultural de programas de promoção de saúde mental e prevenção a riscos para transtornos mentais para pessoas em diferentes estágios e transições do ciclo de vida. 
 
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Tags

Abuso, Namoro, Psicologia, Relacionamento, Violência

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